Livre demanda de sono

Por Fernanda Rezende Silva

Cena típica da maternidade: mãe tentando fazer seu bebê dormir, variando as tentativas entre balançar, amamentar, dançar, cantar – e o bebê não dorme.

Daí começa a neura: “Meu bebê sempre dormiu nesse horário e agora não quer dormir: será que ele está doente, será que meu leite está secando?”.

O que não contaram para essa mãe é que o padrão de sono dos bebês muda – e muito – no primeiro ano, então esse estresse todo poderia ter sido evitado se a mãe entendesse que o bebê simplesmente ainda não está com sono. Dá uma olhada aqui para entender do que estamos falando: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/05/tabela-de-sono-dos-bebes.html .

Só de olhar a primeira tabela já dá para ter uma noção do que se passa com o sono dos bebês: aquele mesmo bebê que, na primeira semana de vida, dormia mais de 16 horas, estará dormindo menos de 14 horas com 1 ano. Esta mudança não acontece de uma vez e nem sempre é fácil perceber “ah, meu bebê está passando por uma transição do padrão de sono”.

Vamos ver um exemplo prático: imagine que João tem 6 meses e ele tira quatro sonecas por dia, nos horários: 9h-10h, 12h-13h, 15h-16h, 18h-19h. Chegou o dia em que João não quis dormir às 9h. Sua mãe viveu a cena descrita acima, se desesperou, pensou em dar remédio para João dormir (socorro!) mas ao conversar com uma amiga (uma boa alma!) ela percebeu que talvez João estivesse mudando a própria rotina de sono: ao invés de 2 horas acordado agora ele quer mais.

A mãe de João tenta fazê-lo dormir meia hora mais tarde, João dorme, a rotina se ajusta e todos ficam felizes. João agora consegue ficar 2,5 horas acordado, então suas sonecas agora são: 9h30m-10h30m, 13h-14h, 16h30m-18h.

Fazer o bebê dormir na hora que ele precisa: isso é a livre demanda do sono. Faz todo sentido se você pensar que o bebê é uma pessoa diferente, que tem necessidades (de fome, sono, sede, etc.) próprias e que ninguém vai adivinhar estas necessidades até que ele as manifeste.

Livre demanda do sono não significa esquecer totalmente que o bebê precisa tirar sonecas e largá-lo à própria sorte – se você fizer isso ele pode não conseguir dormir, aí vem o efeito vulcão: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2013/06/o-efeito-vulcao-pular-sonecas-produz.html . Assim como os adultos, os bebês precisam sim de um ambiente “bom para dormir” – é verdade que alguns dormem em qualquer lugar, de qualquer jeito, mas se o cuidador puder ao menos se antecipar (preparando o ambiente) com certeza será mais fácil fazer o bebê dormir.

E dá para pensar em rotina mesmo com tantas mudanças? Sim, dá para se planejar, mas veja – quem vai de fato definir os horários é o bebê, o cuidador deve estar atento e perceber qual está sendo a rotina de sono do bebê para se planejar. E se o bebê escolheu horários tão ruins que atrapalham o sono da noite? É possível sim dar uma mãozinha para a natureza (isso é assunto para um próximo texto).

Aí você deve estar pensando “ah, que coisa linda – só que meu bebê fica na creche e lá tem horário para tudo”. Não quero entrar no mérito das creches, mas a reflexão acima pode sim ajudar também quem trabalha com grupos de crianças: só de saber que um choro pode ser sono (ou a falta dele) é possível pensar em abordagens que respeitem a criança e consequentemente fazem bem ao grupo todo.