Brincar livre – se é algo tão natural, porque se preocupar com isso?

Por Fernanda Rezende Silva

O Brincar Livre tem sido assunto de pais e mães preocupados com o desenvolvimento saudável de seus filhos. Muito se tem discutido sobre a importância do livre brincar, que promove o desenvolvimento integral (físico, intelectual, emocional e social) da criança. Esta matéria tem mais detalhes sobre isso: http://portal.aprendiz.uol.com.br/2014/11/12/seis-motivos-para-deixar-uma-crianca-brincar-livremente/.
Ok, entendemos que brincar livre é importante, mas se é algo tão natural não poderíamos simplesmente deixar rolar, sem nos preocupar tanto com isso? Então, deveria ser assim se nós vivêssemos numa sociedade que não atrapalhasse os processos naturais. É fácil citar alguns exemplos em que temos que lutar para que o natural tenha vez:
– parto: num país com altíssimas taxas de cesarianas só consegue parir naturalmente quem luta por isso ou quem tem sorte;
– amamentação: a indústria e seus parceiros tentam a todo momento convencer as mães de que seus bebês precisam de fórmula;
– aprender a andar: todo bebê saudável vai andar mais cedo ou mais tarde – mesmo assim inventaram andadores para ‘acelerar’ esse processo natural (ainda bem que seus prejuízos já foram provados e eles já foram proibidos).
Com o Brincar Livre acontece a mesma coisa – veja alguns exemplos:
– bebê tentando brincar com grama ou areia e a mãe diz “não pegue, é sujo”: a mãe está impedindo um aprendizado sensorial;
– no parquinho uma criança tenta subir em um brinquedo e a babá diz “não, você não consegue”: essa criança só vai aprender se puder tentar, e a babá está atrapalhando esse aprendizado;
– criança chamando o pai para brincar de bola, mas o pai prefere colocar a criança na frente da TV: perdeu-se uma oportunidade de ouro de desenvolvimento motor;
– duas crianças disputando um brinquedo e vem um adulto de cara separá-las e tirar o brinquedo de cena: como é que elas vão aprender a gerenciar conflitos se sempre tiverem alguém intervindo?
O ponto alto do Livre Brincar é esse: ter um olhar atento sem atrapalhar. A criança não sabe ainda subir escadas e quer tentar? Ok, você adulto fique logo atrás da criança para protegê-la caso caia, e deixe ela tentar – só dá para aprender tentando (e errando, e tentando de novo, de novo, e de novo). Sabemos que mais cedo ou mais tarde estes aprendizados virão, mas eles ocorrem de forma muito mais fácil se conseguimos aproveitar as janelas de oportunidade (ou seja, os momentos em que a criança demonstra o interesse).
E quando é que um adulto precisa de fato intervir? Quando a intervenção dele também serve como aprendizado. No exemplo das crianças brigando por brinquedo, o adulto não pode ficar só olhando caso uma criança machuque a outra – é preciso sim mostrar que isso é errado, mostrar descontentamento – faz parte do aprendizado também entender limites, entender que o outro deve ser respeitado.
E quando os pais trabalham fora o dia todo – como colaborar com o Livre Brincar? Isso depende das escolhas da família. Se a criança for obrigada a ficar sentada num banco de escola a manhã toda e ainda tiver todas as tardes preenchidas por atividades dirigidas (esportes, idiomas, etc.) com certeza essa criança não terá tempo para o Brincar Livre – ela estará sempre fazendo alguma atividade em que é direcionada por um adulto. Esportes não são importantes? São sim, muito importantes, mas não esqueça do Brincar Livre – uma criança que está na primeira infância precisa brincar tanto quanto precisa comer, dormir, etc..
Chegou em casa cansado e a criança quer brincar? A gente sabe que nem sempre dá, a gente sabe que nem sempre temos energia suficiente para eles, mas pelo menos tente – usando menos o celular, por exemplo, você consegue um tempinho para as brincadeiras, e nesse momento você não estará só brincando: estará construindo vínculos fortes com seu filho.